quinta-feira, 23 de junho de 2011

MARCOS COIMBRA: "A OPOSIÇÃO"

Política
Oposição de Conteúdo

Embora tenha enfrentado e resolvido seu problema interno mais imediato, o conflito entre serristas e aecistas, as dificuldades do PSDB continuam. São questões de organização e funcionamento, algumas históricas (e que são parecidas com as que confrontam os demais partidos brasileiros, à exceção do PT – que tem os seus, mas de tipo diferente) e outras recentes.

Essas decorrem da perda daquilo que os estudiosos da política chamam, às vezes, “densidade social”, sua presença no cotidiano e no imaginário das pessoas comuns.

Embora continue a existir como referência partidária em grandes estados, a começar por São Paulo e Minas Gerais, onde está no poder há muitos anos e sempre possuiu bancadas importantes no Congresso, ele não apenas não cresceu nacionalmente, como perdeu espaço na última eleição.

No Norte e no Nordeste, por exemplo, a reconquista do Pará e os sucessos nos pequenos estados não compensaram o encolhimento.

O problema são as três derrotas consecutivas para o PT nas eleições presidenciais. Transcorridos oito anos da primeira vitória de Lula e com o mandato de Dilma quase inteiro pela frente, o partido completará, em 2014, doze anos fora do Planalto. E fora da tomada de decisões sobre as questões relevantes para a vida das pessoas. (Isso no mínimo, pois as perspectivas de continuidade, até 2018, de uma coalizão liderada pelo PT são grandes, por mais distantes que estejamos da sucessão da presidente.)

É muito tempo. Suficiente para que o cidadão comum se esqueça do PSDB ao pensar nas escolhas de política econômica, educacional, de saúde, ambiental, de relações exteriores e todas as outras que o governo tem que fazer.

Tantos anos depois, fica difícil imaginar o que fariam os tucanos se estivessem no poder. Não se consegue visualizar um governo diferente do atual no conteúdo.

Talvez pior para o PSDB, dele pode restar apenas a lembrança de algo que já aconteceu. Salvo para os iniciados e os interessados em assuntos políticos e de governo (que não chegam a 20% da população), sua “época de ouro” vai ficando remota, perdida nas brumas de um passado indistinto.

Junto com os governos militares, a “Nova República”, o confisco da poupança, o Fusca do Itamar e outras coisas que pertencem aos livros de história.

Importa pouco que o desempenho eleitoral efetivo do PSDB na última eleição presidencial não tenha sido pior que nas anteriores.

Quando, nas pesquisas, se pede aos entrevistados que identifiquem quais partidos “estão crescendo” e quais “estão diminuindo”, a vasta maioria tende a ver o PT como dinâmico e ascendente, e a perceber o PSDB como “parado” ou declinante (a exemplo do PMDB, apesar de sua boa performance recente, e do DEM).

Conta mais, para a opinião pública, o momento em que cada partido está na sua trajetória e se apresenta uma tendência de alta ou baixa. Como dizem os matemáticos, a derivada da função, a taxa de variação, é mais relevante que o lugar.

Para quem já foi governo, tentou sem sucesso voltar e não parece ter grandes perspectivas, o cenário é oposto ao de quem estava na oposição, chegou ao poder e tem chances de continuar.

Para os tucanos, o desafio é saber como se livrar dessa imagem evanescente. E tem razão Fernando Henrique, quando enxerga um caminho nos temas culturais e de comportamento.

Talvez seja se apropriando de bandeiras cuja defesa é mais complicada para quem está no governo que o partido encontre sua inserção contemporânea, que vá além da celebração de seus feitos antigos e da fustigação de ofício dos adversários (coisas que, aliás, não motivam quase ninguém na sociedade).

Se o ex-presidente está certo, o PSDB tem muito a lamentar no rumo que seguiu a campanha Serra em 2010. Não é tentando ficar igual a Lula e ao PT nas questões administrativas (“O Lula da Silva começou e o Zé vai continuar”) e nem assumindo o discurso do atraso em questões morais que ele encontrará seu lugar.

Supondo que assim poderia vencer, Serra não teve a coragem de olhar para a frente.

São poucas as coisas boas de estar na oposição. Uma delas (talvez a maior) é poder se dar ao luxo de ser ousado, apostando alto no futuro.

Marcos Coimbra é sociólogo e presidente do Instituto Vox Populi

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