Em fins de 2014 o ex-ministro tucano José Gregori
deu entrevistas à imprensa sobre dívidas da campanha presidencial de
Aécio Neves (PSDB-MG), falando e se apresentando como tesoureiro; chama a
atenção, porém, que seu nome nem sequer apareça na prestação oficial de
contas apresentada pelo PSDB ao TSE; quem está registrado como
administrador financeiro, popularmente chamado de tesoureiro, é
Frederico Pacheco de Medeiros; trata-se de um primo de Aécio Neves, que
até janeiro de 2015 foi diretor de Gestão Empresarial da Cemig; a
inovação tucana – ter um tesoureiro para a mídia e outro oficial, mas
não revelado, durante a campanha – é mais um componente no mínimo
estranho nas já complicadas contas eleitorais do PSDB, que são alvo de
investigação da ministra do TSE Maria Thereza de Assis Moura.
Helena Sthephanowitz, da Rede Brasil Atual
- Em fins de 2014 o ex-ministro tucano José Gregori (Secretário
Nacional dos Direitos e Ministro da Justiç do governo FHC) deu
entrevistas à imprensa sobre dívidas da campanha presidencial de Aécio
Neves (PSDB-MG), falando e se apresentando como tesoureiro. Uma dessas
entrevistas pode ser conferida
aqui.
Chama a atenção, porém, que seu nome nem sequer apareça na prestação
oficial de contas apresentada pelo PSDB ao Tribunal Superior Eleitoral
(TSE).
Quem está registrado como administrador financeiro, popularmente
chamado de tesoureiro, é Frederico Pacheco de Medeiros. Trata-se de um
primo de Aécio Neves, que até janeiro de 2015 foi diretor de Gestão
Empresarial da Cemig, a companhia de eletricidade do governo de Minas.
Antes de ser levado à Cemig, Medeiros já participava do governo
mineiro desde 2003, ano aliás em que o primo assumiu seu primeiro
mandato como governador. Ele foi secretário-adjunto de governo e
secretário-geral de Aécio.
Ou seja, enquanto a mídia aponta seus holofotes para Gregori, no
papel de "tesoureiro de fachada", o verdadeiro "homem do dinheiro" (para
usar outra expressão popular), aquele que pilotava as finanças da
campanha tucana – nos bastidores e longe dos holofotes –, desde 3 de
julho de 2014 (segundo a documentação do PSDB), também ocupava uma
estratégica diretoria de uma estatal mineira, a Cemig. Cargo que o
levava a lidar com fornecedores da empresa e, portanto, potenciais
doadores de campanha.
Ainda atuaram como arrecadadores de dinheiro para campanha o
ex-diretor do banco Itaú Sérgio Freitas – chamado no meios tucanos de
Doutor Freitas – e Oswaldo Borges da Costa Filho, genro do banqueiro
Gilberto Faria – padrasto de Aécio, falecido em 2008 – e
diretor-presidente de outra estatal mineira, a Companhia de
Desenvolvimento Econômico de Minas Gerais (Codemig). Esta última é uma
estatal poderosa, pois trata da relação do governo daquele estado com as
mineradoras e com outros grupos econômicos. Oswaldo é dono do jatinho
usado frequentemente pelo senador, inclusive em viagens para o aeroporto
da cidade de Cláudio, construído na fazenda do tio de Aécio.
A inovação tucana – ter um tesoureiro para a mídia e outro oficial,
mas não revelado, durante a campanha – é mais um componente no mínimo
estranho nas já complicadas contas eleitorais do PSDB.
Por exemplo, a ministra do TSE Maria Thereza de Assis Moura, relatora
do processo que examina – e já encontrou 15 pontos a serem esclarecidos
–, a prestação de contas da campanha presidencial de Aécio quer que o
tucano explique o "esquecimento" de registrar um repasse de R$ 2 milhões
para o partido de uma doação da empreiteira Odebrecht ao candidato. As
irregularidades nas contas do PSDB envolvendo doações de empreiteiras
(além da Odebrecht, também a Construbase) somam R$ 3,75 milhões. Os
tucanos alegam terem sido falhas contábeis.
Mas o PSDB, aos poucos, vai se encrencando financeiramente também conforme avançam as investigações da Operação Lava Jato.
Nesta semana, a Polícia Federal pediu continuidade nas investigações
envolvendo o ex-governador e agora senador pelo PSDB, Antonio Anastasia.
Surgiu uma testemunha, servidora do governo mineiro na Secretaria de
Planejamento, cujo nome está mantido em sigilo. A testemunha surgiu ao
se apurarem denúncias de que dinheiro vivo para financiamento de
campanhas teria sido entregue na casa de Tânia Guimarães Campos, uma
prima de Aécio e que foi nomeada Secretária de Agenda (um cargo com nome
interessante) do governo estadual, quando o primo e futuro candidato a
presidente ocupava o Palácio da Liberdade.
Os primos Tânia e Frederico foram alvo de denúncia de nepotismo em
2006, quando o deputado estadual Rogério Correia (PT-MG) apresentou um
requerimento apontando que o governador empregava nada menos que nove
parentes na administração estadual.
Na mesma linha de investigação, há outra casa em Belo Horizonte
citada pelo policial federal Jayme "Careca" como endereço de entrega de
R$ 1 milhão, em dinheiro vivo, em 2010, a mando do doleiro Alberto
Youssef, supostamente para a campanha de Anastasia. O doleiro, na CPI da
Petrobras, disse que o nome do destinatário era outro, mas sem revelar
quem era este outro, ou se tratava de um intermediário. O proprietário
da casa é um funcionário da Assembleia Legislativa de Minas.
A Lava Jato também investiga operações de Youssef envolvendo a Cemig.
O doleiro confirmou, sob delação premiada, que "lavou dinheiro" através
de consultoria fictícia para Pedro Paulo Leoni Ramos (ex-ministro de
Collor) sobre a venda de central hidrelétrica para a Cemig. Yousseff
disse não saber que finalidade Leoni deu ao dinheiro.
As trocas societárias entre a Cemig e a empreiteira Andrade
Gutierrez, com prejuízos para a estatal, também despertam suspeitas. A
Cemig entrou em negócios considerados desastrosos, mas que livraram a
Andrade Gutierrez de prejuízos certos
Outra encrenca em que os tucanos vão cada vez mais se afundando diz
respeito à Lista de Furnas. Youssef disse que o ex-deputado José Janene
(PP-PR), já falecido, contou ao doleiro que, durante o governo de
Fernando Henrique Cardoso, dividia propinas com Aécio Neves vindas de
uma diretoria de Furnas.
Convenhamos, com uma lista de suspeitas como estas rondando o PSDB e
Aécio Neves, colocar um diretor da Cemig como real tesoureiro de
campanha, enquanto nomeia um outro para sair na foto é, no mínimo,
gostar de viver perigosamente.